#day 38 – Uma noite sem ponta de vento

Continuávamos à deriva. Estava uma noite calmíssima. A lua ainda não tinha subido pelo que nem a linha do horizonte se distinguia ao fundo… As estrelas… Tantas as estrelas. Vibrantes! Venus com uma cor diferente claro e bem presente. Por pouco a confundi com um barco ao fundo. Tínhamos que fazer as vigias na mesma, não fosse algum cargueiro aparecer na nossa rota e não se aperceber que ali estávamos. O barco estava parado,  mas mesmo assim, com uma ondulação de 3 metros pelo traves, tudo oscilava para um lado e para outro. Era quase insuportável estar lá dentro. Estava quente e agradável, mas quando temos que simplesmente que nos deslocar dentro do barco e não o conseguimos fazer sem nos agarrarmos a qq móvel que encontrarmos, e mesmo assim, vamos ganhando mais e mais marcas e nódoas negras em todo o lugar, sabemos que aquela noite vai ser dificil.

Saí para o deque para fazer a minha vigia. Estávamos literalmente no meio do mar à deriva, sem nenhuma pista de se a nossa estratégia iria funcionar no dia seguinte. Bendito telefone satélite que nos permitiu comunicar com terra e pedir ajuda a quem sabe! Se não funcionassem as dicas que recebemos, poderíamos ter que ficar semanas até o vento voltar. A imensidão de tudo (ou nada) à nossa volta tinha tanto de inigualável como de assustador. Não saber o que se passa debaixo do barco, um silêncio profundo sem sequer restícios aparentes de fauna ou flora. Imaginar que não existe rigorosamente nada ao alcance da nossa visão, tras uma sensação de extase que mal posso explicar. Nunca conseguir dizer a ninguém porque me sinto segura no meio do mar, mas o que é certo é que sinto. Como se ele estive a comunicar ctg. Talvez a tentar contar uma história, talvez a ensinar-me o que preciso, ou quem sabe apenas a apreciar a nossa presença, dando tanto de suporte como de desafio… Quem sabe? Como é que este elemento que parecia tão sereno naquela noite podia ao mesmo tempo impor tanto respeito. É preciso distiguir bem estes dois sentimentos. Costumo dizer que não tenho medo do Mar, mas tenho um respeito sem medida.

E o guinchar do barco continuava num lamento sem fim. Como se ele proprio quisesse sair dali tb. Como se ele soubesse que estava preso por aquela corda que ninguém estava a conseguir retirar. Por talvez querer seguir caminho tão rapidamente quanto nós.

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2 Comments Add yours

  1. Nuno diz:

    Corajosa 🙂

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  2. Rui Vidal diz:

    (…) A imensidão de tudo (ou nada) à nossa volta tinha tanto de inigualável como de assustador. (…) não tenho medo do Mar, mas tenho um respeito sem medida.

    Como eu te entendo, Bárbara…

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