#day274 – mãe 

Para ti, sempre serei a Babuska. A menina que ora corria pela casa alegre, ora se embrenhava nos puzzles, horas, dias, semanas a fio. 

Para ti sempre serei a Babuska. A menina independente por quem não se dava em casa. Que não chamava à atenção, mas brilhava em qualquer rua só com a sua vontade de alimentar todos os animais abandonados do mundo. 

Para ti sempre serei a Babuska. A menina que te intrigava e que tinhas que deixar solta. Deixá-la chegar a casa suja e rasgada dos dias felizes passados no mato. Só tu sabes o quão o coração te apertava por não saberes onde estava ela. O dia todo. Onde parava o seu olhar. E tinhas que confiar no seu discernimento de 6anos que já descobria o mundo sozinha. Sabes? Nem todas as mães conseguem deixar os seus filhos soltos. Têm medo de os perder. Que “se magoem”. Mas tu seguravas os teus ímpetos e deixavas-me ir. Com um beijo na testa. Largavas um sorriso confiante e um adeus vibrante. Mas por dentro rezavas, para que corresse tudo bem. Essa tua capacidade de me ensinares acerca da liberdade. Pelo exemplo. De que podemos ir com moderação e cabeça experimentar o mundo. E regressar com as experiências digeridas, até à hora de jantar. Às crianças de hoje falta a possibilidade de pensarem por elas. Parece que os pais sempre lhes dão a “papinha feita”. Mas tu sempre me deixavas bater-com-a-cabeca-na-parede. E nem assim ouvi eu alguma vez da tua boca um “eu bem te avise!”. De ti só tive colo. Sem pinga de julgamento. Para todas as minhas lágrimas. Que foram tantas que ainda hoje és a minha melhor amiga. E provavelmente não sabes. 

Para ti sempre serei a Babuska. A menina que mantinha um diário, diario.  O qual tu fechavas sem ler, porque acreditavas na privacidade. Deixavas-me ter segredos. E depois educaste-me para ser um livro aberto para o mundo. E ensinaste-me que a transparência é o que nos faz dormir bem à noite. E que nada é mais valioso do que a ética de uma consciência tranquila. 

Para ti sempre serei a Babuska. A menina que às vezes estragava coisas em casa, e a quem tu nunca ralhavas, se eu tivesse a coragem para admitir os meus erros. Ensinaste-me a valorizar a verdade acima da culpa. E que a responsabilidade traz a paz. Ao ponto de hoje em dia não entender porque se mente quando a verdade só constrói uma vida autêntica. 

Para ti sempre serei a Babuska. A menina pura e ingénua que a vida fez. E tu conseguiste manter fora da corrupção do julgamento dos outros. Protegeste-me dentro dos pilares da verdade e liberdade. E é por isso que ainda hoje me sinto criança. Não por ter parado no tempo. Mas por me teres ensinado a manter o olhar encantado pelo mundo. É desta forma me ter sido permitido continuar a amar a vida como só uma criança sabe fazer: admirando e confiando na magia à nossa volta. 

Sabes, mãe? Os adultos já não acreditam em magia. Encolhem-se nos seus chicotes de obrigações. E não abrem os corações para a possibilidade de uma vida plena e genuína. Porque se esqueceram de quando eram crianças. E podiam tudo. Até serem quem queriam. 

Tu nunca me deixaste esquecer de quem sou. Talvez por isso me tenha tornado a Bárbara. Não a que idealizaste na tua barriga, mas a que me deixaste ser. 

E agora, só quero também eu ser mãe. Para quem sabe ser tão boa como tu a passar valores, e a fazer acreditar que vale a pena vir ao mundo e relembrar-nos da humanidade que perdemos, sem sabermos, em todas as vezes que não nos permitimos fazer brilhar a nossa essência, de crianças apaixonadas pela vida. 

Obrigada por tudo, mãe. Só tu sabes o que passaste para que hoje, eu possa ser quem sou, e mesmo assim guardar a Babuska dentro (como um privilégio que esta menina/mulher tem), graças a ti. ❤

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