🌀 Os meus dilemas pessoais

Desde criança que tenho dúvidas existenciais e questões éticas de fundo. A minha mãe conta muitas vezes a história de eu (ingenuamente) levar formigas para o açucareiro de casa para elas não passarem fome. Tínhamos o kit bebés sempre pronto porque eu constantemente recolhia (principalmente) gatos bebés de rua e passarinhos caídos dos ninhos para cuidar em casa. A minha mãe tinha uma paciência infinita para os meus choros e revoltas. (“Como é que podem abandonar animais assim??” Gritava eu com 6 anos). E cuidava dos inúmeros gatos com carinho só para que eu não sofresse mais. Os meus avós da Lousã viram-se com a necessidade de apoiar quase 50 animais de estimação ao mesmo tempo em casa para que eu pudesse estar minimamente tranquila a dedicar as minhas férias de verão em particular à causa animal. Eu e o Pedro (o meu melhor amigo da altura) transformámos um galinheiro em clube dos animais e vendíamos rifas, e recolhíamos fundos para alimentar cães de rua. Não me lembro de um único dia de infância em que não estivesse a cuidar de uma parte do nosso planeta. Ou com ações ou com planos mentais. Não, nunca fui uma criança “normal”. Mas consegui ser diferente porque tive a sorte de ter uma família que apoiava essa diferença e não me impingia ideias de futuros ideias.

Hoje, décadas depois, essa necessidade minha de repensar todos os sistemas para que possamos viver num ambiente saudável para todos alargou-se a praticamente todas as áreas da minha vida de uma forma que não consigo explicar.

Aqui ficam algumas das coisas que me assaltam o coração quando tenho que escolher comprar ou consumir no mundo “real”:

– crise dos plásticos / lixo / florestas

custa-me quando oferecem palhinhas e plásticos single-use em bebidas e comidas e nem imaginam a gravidade da situação dos plásticos nos oceanos.

Prefiro ir à casa de banho lavar as mãos a ter que usar guardanapos de papel, principalmente se não forem de papel reciclado. Perdemos a integridade da nossa floresta para o papel. Será que temos que perder a integridade moral também?

Odeio ter que puxar o autocolismo quando este usa água potável. Fico confusa em lugares onde não posso reciclar ou compostar.

Não consigo entrar num supermercado e comprar tudo embalado. Quando sou obrigada a entrar num, ver os lineares como estão é algo que me faz chorar muitas vezes. Até nos supermercados biológicos. Não faço menor ideia de como explicar as pessoas que precisamos comprar mais a granel até para estimular esse mesmo mercado. Para onde foi a sabedoria dos avós em que se aproveitava tudo e as embalagens se reutilizavam? Estamos supostamente numa civilização inteligente. Eu diria que nunca fomos tão ignorantes.

Não compro nada que tenha óleo de palma. Não quero de todo contribuir para a perda de florestas prístinas na Indonésia. Soja muito menos. Odeio pensar que estou a contribuir directamente para o desmatamento da Amazónia (via produção de soja para consumo humano mas principalmente para consumo animal. Sim dessas toneladas de carne bovina que ninguém quer abdicar de consumir). E nem vou falar na indústria dos laticínios. Eu que sou apaixonada por queijo. Será que todas as pessoas sabem como são tratadas as vacas para produção de leite? Precisamos de tornar ilegal a crueldade animal. Vamos falar dos ovos e da indústria das aves? Dessa “carne branca” tão mais saudável… e também tão mais cheia de hormonas, tóxicos e antibióticos. Ahh já agora com animais que nunca sequer colocam as patas no chão.

Custa-me adormecer no meio da cidade onde não se ouvem os grilos mas sim o ar condicionado do vizinho e o carro do lixo a passar. Aperta-me o coração de não ter a certeza de onde aquele lixo vai parar. Abomino os lobbies que não permitem que se entregue valor a quem recicla e que o mercado do lixo continua a ser muito proveitoso para alguns. Esses mesmos que não deixam o mesmo mercado evoluir. Bora gerar electricidade com lixo? Ahh não… isso será uma investimento muito custoso. A pergunta é: qual é o custo ambiental da produção e não tratamento seguro do lixo em geral?

É difícil encontrar roupas feitas de tecidos sem micro plásticos e com certezas de não terem trabalho infantil ou escravo.

Mesmo o uso de cortiça, azeite, vinho e cereais. Será que todos conhecem os verdadeiros impacto das monoculturas nos ecossistemas mundiais? E os tóxicos? As correlações com cancro. A contaminação dos lençóis freáticos. Hoje em dia todos os peixes de mar tem plásticos no seu organismo que comemos sem saber. Os de fazenda contém quantidades de hormonas e antibióticos inacreditáveis. Não admira que a comunidade médica esteja assustada com o não efeito dos antibióticos no curto prazo. Milhões de pessoas consome antibióticos no seu dia a dia e nem tem consciência disso.

E depois as mulheres queixam-se de não conseguirem emagrecer ou se sentem inflamadas, mas continuam a consumir carnes com hormonas de crescimento todos os dias. Onde está a educação para uma alimentação mais alcalina e verde?

Рcar̻ncias emocionais / crise valores / perda de humanidade

Não entendo porque as pessoas fumam ou se drogam. Porque não doam sangue e outros? Não entendo a necessidade de uso constante de maquilhagem, soutians e saltos altos. Gosto de usar quando me apetece. Uso sempre os mesmos. Mas quando não uso aprendi a não deixar que isso afectasse a minha auto-estima. Odeio ter muita coisa. Ando sempre com a mesma roupa, mesmos sapatos e raramente troco de mala. Não me importo com os comentários. Importo-me com o facto da indústria têxtil ser a mais poluente e escravizante do mundo. Compro menos e de forma mais consciente. Gasto mais em cada peça. Gasto muito menos em valor total.

Parte-me o coração ver crianças a crescer sem qualquer tipo de contacto com a natureza. Se elas não tiverem experiências marcantes com o mundo natural, como irão elas ter comportamentos conscientes no futuro? Só protegemos o que aprendemos a amar.

Pais que entregam as vidas das crianças em infantários para trabalharem desumanamente para poderem comprar tudo o que as crianças Não precisam ter. Os valores passam a necessidade de posse. E não de regeneração.

Choca-me que se invista mais na doença do que na prevenção. E que o mercado da alimentação, viva mais da especulação da sua liquidez na bolsa, do que propriamente a estimular as economias locais. Sim. Todas as grandes cadeias pagam aos fornecedores a 90 dias e recebem a pronto. Já pensaram nas implicações e oportunidades especulativas disto? E na banca ética? Ninguém fala? Há… espera… o banco de Portugal tem que aceitar. E tem que haver massa crítica de projectos para essa banca entrar… 🙄 Então que se aceitem leis que apoiem trocas comerciais e investimentos na economia local. Que se incentive como nunca a economia social. São os “pequenos produtores” os verdadeiros heróis nacionais.

Odeio que se possa consumir tudo por uma questão de “liberdade de mercado” e que se incentive até superalimentos vindos do outro lado do mundo só porque é “saudável para mim”. E para o mundo? Para terem ideia, nem sei se quero ter filhos só pelo impacto que isso tem na super população mundial.

Preocupa-me a infelicidade geral das pessoas com os seu trabalhos em geral. Falta de propósito e desinteresse nos caminhos de evolução humana. O yoga ajuda. Mas é preciso muito mais.

Рconstrṳ̣o, habita̤̣o, comunica̤̣o e transportes

Odeio que a lei não preveja aprovação genérica de bio-construção em vários âmbitos e que a ignorância da maioria de arquitectos e eng não apoie o movimento de construção natural. E que sistemas como simples casas de banho secas sejam uma questão de “higiene pública”. 🤦‍♀️ Então higiene é termos todos os tóxicos a serem debitados nos rios e mares? Mesmo os que passam por etares? Tanto composto que podia ser devolvido à terra para regenerar o solo que destruímos, e que vai literalmente por água abaixo. Dói -me a indústria do cimento e o impacto que tem inclusive no quintal de casa que é o incrível parque natural da Arrábida. É um drama interno sempre que tenho que comprar móveis ou tecidos para uma casa. Odeio ter que usar Madeira. Nem sempre as fibras de tecidos são de origem reciclada. E há tanto plástico em tudo que o natural hoje em dia é brutalmente caro. Não me sinto 100% confortável com os veículos eléctricos. Há indícios de trabalho escravo em tantas minas e como se reciclam as baterias… sou apoiante do movimento. Mas… precisamos alinhar mais.

Todo o lixo tecnológico. Estratégias de obsolescência programada. Será que todos sabem que muitos equipamentos estão programados para se “estragarem” um pouco antes dos novos modelos estarem prontos para lançar?

É por tudo isto que…

Dedico toda a minha vida e tudo o que sou a causas. Não porque é “bem” ser-se assim. Já nasci com estas vontades. Mas porque sofro se não for de outro jeito. Não perco tempo a pensar em “carreira”, “família” e “carro novo”. Todo o meu espaço mental é a criar soluções de vivência mais humanas e ecológicas para o meu dia a dia. Poucos compreendem a forma como penso e me entrego assim. E estou longe de estar a consumir como desejaria. Há inúmeros erros que não consigo deixar de evitar. Sim. Também tenho um iPhone. E um carro a gasolina. Não encontrei opções suficientemente claras / viáveis para mudar. Não sou fundamentalista nem hipócrita. Sou consciente, e quando estou a consumir mal, conheço os impactos que isso tem. E incorporo essa consequência da minha decisão. E sofro. Sofro a valer. Cada vez que decido consumir mal. Sempre, por falta de opções. Muitas vezes em jantares de grupo dou por mim em silêncio e isolada do convívio a deambular por todas as questões que se levantam ao olhar para a mesa do jantar. E penalizo-me por isso.

Não. Não sou de todo perfeita. Por isso é que sou pelo marketing consciente. Porque até o mercado de soluções consciente não estiver bem implementado, pessoas como eu ou qualquer um de nós, não pode consumir cada vez melhor. Porque o mercado não oferece suficientes soluções reais e sinceras.

E depois perguntam-me “mas com tanta coisa qualquer dia não podemos consumir nada!” Ao que respondo “podemos consumir muito melhor perante as opções que temos. Se todos alterarmos os nossos padrões de consumo nem que seja um pouquinho para outros mais conscientes e termos mesmo noção dos impactos, mesmo que o nosso acto de consumo não seja perfeito, já tem uma contribuição brutal. Somos nós que dirigimos a economia. Não me canso de insistir nisto. Comprem menos em quantidade e terão mais dinheiro disponível para comprar em qualidade. Não me venham dizer que é uma questão de preço. É sim uma questão de consciência e hoje em dia de sobrevivência. Todo o dinheiro que colocamos em compras, precisamos entender que é nessa indústria, projecto ou caminho, que decidimos, enquanto humanidade, fazer o mundo evoluir. Hoje em dia gasto muito menos em compras e ganho muito mais pelo meu trabalho. É possível! Falo pela e com minha própria voz!

E vocês? Onde colocam a vossa energia? Em que caminho de evolução decidem todos os dias investir?

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2 Comments

  1. Caramba, Bárbara, melhor escrito é impossível. Ainda ontem falava um pouco disso com o meu filho. Não é fácil, de todo. Mas é possível, quero crer. Meu Deus, como realmente encontro identificação naquilo que escreve que, creio, reflecte aquilo em que acredita, aquilo em que acredito, e aquilo em que um punhado de gente por esse mundo fora acredita. Aplaudo o seu texto, aplaudo a sua vida e aplaudo cada ação que se consegue implementar a cada sua que passa. Continuemos individualmente e tentemos conjugar esforços no sentido de um mundo melhor, com uma consciência digna de um ser humano dito inteligente. E obrigada por estas palavras.

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  2. “Prefiro ir à casa de banho lavar as mãos a ter que usar guardanapos de papel, principalmente se não forem de papel reciclado. Perdemos a integridade da nossa floresta para o papel. Será que temos que perder a integridade moral também?”
    olá Bárbara. Confesso que nunca tinha pensado nessa alternativa na forma de combater os papéis que não recicláveis. Sou apologista de diminuirmos muitos dos nossos maus hábitos em prol de ajudarmos o meio ambiente a regenerar-se mas nunca me passou pela cabeça que existem papéis não recicláveis e que as grandes cadeias de alimentação nos oferecem com o intuito de os utilizarmos para uma mera questão de higiene: limparmos as mãos, a boca.
    De hoje em diante, vou prestar mais atenção e procurar maneiras de regenerar o nosso planeta em pequenos hábitos do cotidiano.

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