Pilgrimages · Places

#day141 – viajar… 

Travel is like love, mostly because it’s a heightened state of awareness, in which we are mindful, receptive, undimmed by familiarity and ready to be transformed.”

Pico Iyer

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#day 109 – Living the dream

Vim para o Brasil para viver o meu sonho e não sabia. Não sabia que depois de 8 anos de trabalho pessoal, inúmeras dificuldades e desafios superados, iria encontrar do lado de lá do precipício uma vida que nunca imaginei. Uma liberdade que nunca sequer sabia ser possível e uma alegria interna que não cabe em mim. Não cabe no espaço à minha volta. Diria até que não cabe neste mundo. De tal forma me expando que não me vejo o fim. Não reconheço os limites do que sou numa visão de 360º tão ampla que se não estivesse tão alinhada com o meu sonho, não saberia para onde caminhar.

E essa é a parte mais importante. Quando se superam os desafios, vem a parte ainda mais difícil. A do foco, a da determinação, a da coerência. Da certeza do caminho do coração que agora se torna cada vez mais claro e objectivo. Não deixa muitas margens para dúvidas porque as águas internas estão claras, limpas.

Vem o desafio da humildade, do trabalho continuado e da não ilusão. Vem a lição da perseverança e da não acomodação. Vem a presença mais profunda e a vida mais acompanhada. Como ou sem pessoas em torno. Vem a sensação de unidade, do todo, da vida. Vem a certeza de se estar a viver o sonho. Sendo que esse sonho, passa mesmo a ser a realidade. Tantos e tantos passos tive que dar para me fazer a mulher de hoje. Tantos mais que terei que dar. E tanto entusiasmo pelo que vem que não caibo em mim de gratidão.

Possa eu continuar a descobrir-me nesta entrega ao mundo. Possa eu ser consistente neste dar à Humanidade. Possa eu criar todas as soluções e mudanças que o coração me pede para mim e para os outros. Possa eu continuar a seguir por aí a desbravar as trilhas do que amo. Possam todos perceber que tudo isto é real e está disponível para todos: Basta seguir a estrada da singularidade de cada um, que leva, impreterivelmente, à unidade com o todo. É possível viver o sonho individual sem limites. ❤

 

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#day41 – As Rotinas Diárias

Os dias eram sempre os mesmos. Ou não… Durante os dias de maior frio fazíamos turnos de 2h para descansarmos 4. Nos restantes, fazíamos de 3h e 6 de descanso. Eu já estava autónoma. Por algum milagre, já sabia afinar as velas, tinha noção dos ventos e quando olhava para o mar já entendia o que ele me dizia. Sabem? O mar tem uma linguagem própria, ondulante, impressionante. Parece que respira, que se faz vivo, que se apresenta como um todo. Parece um qualquer indivíduo cheio de tudo, principalmente de personalidade. Eu estava profundamente ouvinte, e ele foi-me ensinando. Passo a passo, a estar com ele. É muito diferente estar na costa ou no meio do mar. A sensação de respeito é constante. Não tenho como explicar, mas durante toda a viagem, nunca tive medo de estar ali perdida no meio daquela vastidão. Afinal de contas, fui convidada. Não fui fazer tal viagem por capricho ou mera vontade egoística de superação. Fui porque me senti chamada. Consiga eu explicar o que é isso em palavras 🙂

Tinha muito tempo para ler, estar e divagar. Tinha muito tempo e espaço para tudo na verdade. Quantas vezes na vida podemos estar tão disponíveis assim? Quantas vezes a vida se nos apresenta de forma vazia e com tanto potencial de criação. Não fosse o meu computador ter pifado no 5º dia de viagem, teria eu escrito um livro técnico no caminho :p Mas pifou. Obrigou-me a dias de contemplação. A SER em vez de FAZER. Obrigou-me a verdadeiramente parar e aproveitar o espaço, vazio e solidão. Isto porque o cansaço era tanto e sendo apenas 3 no barco, tínhamos que aproveitar o tempo livre para descansar ao máximo, não nos fosse calhar uma vigia complicada.

Todos os dias cozinhávamos pelo menos uma refeição quente. Normalmente o jantar para nos aquecer durante a noite. A cozinha não é como as normais. Cozinhar numa embarcação em caminho, é por si só uma experiência. A cebola que insistentemente salta da faca e da mesa, o balanço imprevisto que nos trás mais uma nódoa negra, os armários que podem despejar os seu pertences quando temos  a ousadia de os abrir. Tudo é infinitamente mais complexo no mar. Mesmo assim, o barco era muito confortável. Era na verdade um barco de luxo (http://www.jeanneau.com/boats/Jeanneau-64.html). Tínhamos muito conforto, cada um a sua cabine, mas mesmo assim a maior parte dos dias são difíceis. Muito difíceis. Principalmente para quem não é velejador como eu, a fazer esta travessia no inverno e com mar revolto 6 em cada 10 dias de viagem. Mas sei hoje que a atitude é o mais importante. Não interessa só a experiência, o background e as competências. A atitude, é o que no fim define uma experiência bem sucedida ou não. Muito mais do que um CV recheado de canudos ou eventos. É a atitude  e provalmente a paixão que trás a profundidade no que se está a fazer. E com essa profundidade vem a aprendizagem.

Por exemplo, os banhos são difíceis. O mar tem que o permitir. Não dá para “tomar um banho antes de ir para a cama” depois de termos levado com 3h horas de mar revolto literamente na cara, muitas vezes nem dá para mudar de roupa. É perigoso estar nos cubículos das casas de banho com o barco num mar em fúria. É preciso aguardar por um dia calmo e de preferencia tomar banho no deque de alguma salgada e mangueira. A água doce é escassa. É preciso aprender a respeitar os timings que não são nossos e deixar de nos agarrarmos à nossas próprias necessidades. Afinal de contas, se não formos verdadeiramente uma crew no mar, podemos mesmo estar a colocar todos em risco. Aprender a ter a atitude correcta de agradecer por um banho a cada 5 dias, é algo que ainda trago comigo. Não a prioricidade do banho, mas sim a prioricidade dos momentos de gratidão 🙂 Experiências assim constroem-nos o carácter. Dão-nos novas perspectivas e levam-nos pelo caminho que temos que percorrer para chegarmos onde temos que chegar e onde provavelmente nos esperam.

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#day39 – A corda

Acordámos e continuávamos à deriva. Eu tinha acabado de fazer o meu turno das 6h da manhã e já eram 9h quando a Janet aparece para me substituir. O dia já se fazia sentir. O sol espreitava curioso por entre as poucas nuvens, e o vento continuava tímido. Ainda estava frio. A Janet aqueceu água para o café. O meu pequeno almoço já ia na segunda volta. “ok, qual é o plano?” perguntei. “Vamos já para a água e resolvemos o assunto. Nem vale a pena acordar o capitão. Deixa-o dormir. Ele não vai querer entrar da água de qualquer forma”. “Acredito que não mas mais olhos a zelarem por nós é sempre mais prudente”. Discutimos as estratégias  que entretanto tínhamos congeminado durante a noite e estávamos mais que prontas para seguir para a água quando acorda o capitão. Tranquilamente manteve o seu ritual da manhã sem uma palavra e nós continuámos nos preparativos. Era inacreditável que ele enquanto capitão e único homem no barco nao tivesse sequer um rasgo de virilidade para resolver um problema que no fundo era dele. Via-se uma distância no olhar dele, como se algum medo maior estivesse por trás de toda aquela abstenção ao tema da corda. Ele estava visivelmente perturbado mas inerte. Incapaz de reagir ao medo, digo eu.

A Janet prontíssima e eu também. Ela saltou primeiro para a água. Super decidida, decidiu perder o medo e mediu a distancia debaixo do barco. Ao vê-la a primeira vez a desaparecer por baixo do casco deu-me arrepios e desconforto total. Mas ela regressou e disse “Não é nada de mais. É mais perto que parece, mas… Está muito muito feia a situação lá em baixo.”. Cerca de meia hora passada, ele começava a ficar com frio. Tinha conseguido tirar cerca de metade do nó. Faltava o resto. Salto eu para a água para a revezar. Estar a noite toda a ganhar confiança e a transformar o medo em acção, fez-me chegar ao mesmo local do dia anterior onde me senti uma formiga debaixo daquele “bicho” gigante, e ter uma sensação completamente diferente. Tive a sorte de ter o meu telefone satélite e ter conseguido comunicar com várias pessoas que me deram imensas dicas de solução. Mergulhei sem pensar mais. Muitas vezes as nossas limitações são apenas as que as nossas mentes nos impõem. Nada mais. No dia anterior tinha ficado petrificada pelo cenário de perigo total que o capitão nos tinha passado. Depois de o ver a não conseguir entrar na água sequer, deixei de confiar no que me dizia e simplesmente segui o movimento do barco até à hélice. Tínhamos colocado um cabo de um lado a outro do barco mesmo junto à hélice o que nos ajudava em muito a chegar lá sem grande esforço. Olhei, observei com calma. Voltei a olhar. Fui e voltei umas duas vezes só para medir a distância. Ganhei confiança e comecei a sentir-me calma para, por momentos, simplesmente observar o nó. Havia um grande pedaço de corda enrolado na hélice de uma forma tal que quanto mais puxávamos, mais prendia. Estar ali de baixo… Olhar para o casco em movimento amplo, sentir que qualquer pancada poderia ser o meu fim, sentir o barco e ser um com ele, ligar-me aos animais que pudessem estar ali à volta (sim tive medo que pudesse haver tubarões ou outros gigantes por lá!), respirar e seguir… Sem grandes pensamentos, fiz o que me pareceu natural, puxar a corda no sentido inverso para trás, para dar oportunidade de soltar nalgum outro local e com mais folga, soltar de vez. No momento que estava lá de baixo, tive a sensação de não ter tido nenhum pensamento lógico e muito menos de ter desenvolvido qualquer tipo de raciocínio. Apenas executei uma qualquer informação que estava a receber. Por mais estranho que pareça, às vezes sinto que é mais importante eliminar qualquer tipo de pensamento ou opinião, para dar espaço para a observação nos levar à solução sem forçar. Volto a mergulhar e com dois toques certeiros vejo a corda soltar-se. Voltei a olhar pois não estava a espera que fosse tão fácil, mas a corda estava cada vez mais longe. Nadei para a alcançar mas estava a ficar sem fôlego. Voltei para trás. Respirei, lancei um qualquer grito de vitória e voltei a mergulhar. Tinha que apanhar o troféu! Lá estava ela! Nas minhas mãos! Solta, enorme e pesada. Que maravilhosa sensação! A Janet aos pulos, o capitão sem perceber muito bem como o tínhamos feito e eu absolutamente orgulhosa do feito conjunto. Missão cumprida! Estávamos soltos de novo! Voltei a descer para inspeccionar bem a hélice e garantir que nada mais teria lá ficado, e 20 min depois já estávamos em curso outra vez. Muitas vezes acho e sei que somos capazes de muito mais do que achamos. Basta para isso simplesmente acreditarmos piamente que os desafios estão apenas lá para nos mostrar ou simplesmente relembrar de que fibra somos feitos.

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#day 38 – Uma noite sem ponta de vento

Continuávamos à deriva. Estava uma noite calmíssima. A lua ainda não tinha subido pelo que nem a linha do horizonte se distinguia ao fundo… As estrelas… Tantas as estrelas. Vibrantes! Venus com uma cor diferente claro e bem presente. Por pouco a confundi com um barco ao fundo. Tínhamos que fazer as vigias na mesma, não fosse algum cargueiro aparecer na nossa rota e não se aperceber que ali estávamos. O barco estava parado,  mas mesmo assim, com uma ondulação de 3 metros pelo traves, tudo oscilava para um lado e para outro. Era quase insuportável estar lá dentro. Estava quente e agradável, mas quando temos que simplesmente que nos deslocar dentro do barco e não o conseguimos fazer sem nos agarrarmos a qq móvel que encontrarmos, e mesmo assim, vamos ganhando mais e mais marcas e nódoas negras em todo o lugar, sabemos que aquela noite vai ser dificil.

Saí para o deque para fazer a minha vigia. Estávamos literalmente no meio do mar à deriva, sem nenhuma pista de se a nossa estratégia iria funcionar no dia seguinte. Bendito telefone satélite que nos permitiu comunicar com terra e pedir ajuda a quem sabe! Se não funcionassem as dicas que recebemos, poderíamos ter que ficar semanas até o vento voltar. A imensidão de tudo (ou nada) à nossa volta tinha tanto de inigualável como de assustador. Não saber o que se passa debaixo do barco, um silêncio profundo sem sequer restícios aparentes de fauna ou flora. Imaginar que não existe rigorosamente nada ao alcance da nossa visão, tras uma sensação de extase que mal posso explicar. Nunca conseguir dizer a ninguém porque me sinto segura no meio do mar, mas o que é certo é que sinto. Como se ele estive a comunicar ctg. Talvez a tentar contar uma história, talvez a ensinar-me o que preciso, ou quem sabe apenas a apreciar a nossa presença, dando tanto de suporte como de desafio… Quem sabe? Como é que este elemento que parecia tão sereno naquela noite podia ao mesmo tempo impor tanto respeito. É preciso distiguir bem estes dois sentimentos. Costumo dizer que não tenho medo do Mar, mas tenho um respeito sem medida.

E o guinchar do barco continuava num lamento sem fim. Como se ele proprio quisesse sair dali tb. Como se ele soubesse que estava preso por aquela corda que ninguém estava a conseguir retirar. Por talvez querer seguir caminho tão rapidamente quanto nós.

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#day37 – À deriva no meio do Atlântico

Estávamos à deriva. Este dia foi no mínimo inusitado. O sol brilhava, estava quente apesar dos apenas 20º que mostrava o termómetro. Tinha acordado às 6 da manhã para a minha vigia diária, e estava no deque nas minhas leituras habituais. Já se fazia um dia lindo apesar de não haver ponta de vento. Estávamos a motor para não perdermos muito tempo, pois esse já não o tínhamos. Em amena cavaqueira com a minha colega de bordo Janet, ouvimos um barulho esquisito e uma turbulência estranha. Pensei que o dessalinizador já estivesse a funcionar. Tínhamos estado o dia todo nisso. Descemos para perguntar ao capitão o que tinha sido e só o vemos a correr para o poço do barco para desligar o motor. Aparentemente tínhamos algo a impedir a normal rotação da hélice. O capitão aparece com uns óculos de mergulho e pergunta “quem vai lá a baixo ver?”. Fui voluntária imediata tal era a vontade de mergulhar naquelas águas… Passava muito tempo a olhar para o mar deste que entrei naquele barco. O azul era diferente. O sol espelhava-se todos os dias de forma original, como se não houve maior espetáculo do que se por em si mesmo. A água a 23º e o barco parado. Biquini! Depois de um mês de mar revolto e de temperaturas negativas e pouco convidativas, hoje era um dia perfeito para entrar e mergulhar! Tal e qual uma criança, atiro-me sem receios e sem pensar muito na fauna que pudesse por ali haver. As aguas são escuras no meio do mar…

Ok, estava debaixo do barco, e com swell de 2m a fazerem o barco adornar. Que respeito que aquele 64 pés impõe visto de baixo. Volto a tras… Tínhamos que montar uma estratégia. A Janet entra depois de mim com os óculos e viu o grande cabo enrolado na hélice… Mas que raio de azar que nos leva a uma situação destas completamente improvável no meio do mar! Eu tinha visto alguns plásticos a boiar durante a viagem, mas ter algo a impedir que o barco avançasse era demais. Eu e a Janet estávamos muito entretidas a analisar a situação debaixo de água confiantes que o capitão estivesse apenas a dar-nos uma situação para resolução como parte do treino, até nos termos apercebido que ele não queria nem entrar na água porque estava frio! 23º na água e estava frio!? Começámos a ficar preocupadas. Mas depois de 2h de tentativas, com o sol a por-se não tínhamos muito mais espaço de manobra. Fazer um transatlântico com um capitão que nem calções de banho tras e se recusa a entrar na água pq esta frio, é caso para rir ou chorar.. Nós preferimos rir. Na verdade, tudo parecia estar a correr mal com este barco. A saída atrasou mais de um mês, a cada tentativa de saída havia sempre mais um problema. Sempre a meter água. Em toda a viagem que já ia na sua segunda semana, nunca o tivemos a funcionar totalmente bem. Um barco novo de fábrica a quem foi recrutada uma entrega e onde o dono o esperava em Detroit USA. Olhar para um capitão literalmente incapaz de saltar para a água, foi das surpresas mais cómicas que alguma vez encontrei. Como pode um “homem do mar” ter uma relação assim com a água? Julgamentos à parte, o que era certo é que não podíamos colocar marcha atrás nem insistir no motor para “não estragar”, não podíamos ir lá abaixo por ser perigoso (pelas palavras do capitão), e sem ponta de vento também não podíamos ir a lado nenhum à vela! Ele estava desesperado… O coitado até foi picado por uma caravela portuguesa que se passeava no cabo que estamos a lançar ao mar por proteção enquanto ele o tentava recolher. Enfim, enquanto isso, eu e a Janet, na água a ganhar confiança no movimento do barco para tentar ir lá abaixo e soltar aquilo de vez. Decidimos deixar para o dia seguinte com tempo e nova luz. Já se fazia tarde. Jantámos e recolhemos. Tínhamos que estar prontos em breve pq as vigias noturnas teriam que acontecer na mesma. Nunca sabemos se não temos um qualquer barco em rota de colisão ou se levanta o vento e precisamos içar velas para seguir. O meu turno começava às 21h e eu pronta para a vigia mais insólita do momento! Lá fora o mar estava qse chão. Impressionante pôr do sol, as cores que não sei explicar. A paz. O barco parado e por isso paz. É difícil de descrever o que se vive no meio do mar. Aquela imensidão que vem com a fluidez das ondas espaçadas, tão espaçadas que parece que estamos a ver o chão mexer-se caso não tivéssemos certeza que tudo aquilo era água. Já dentro do barco a história era outra. A cada onda, a certeza de um movimento. Ter a ondulação pelo traves de um barco parado é no mínimo desagradável. O barco sempre a adornar de um lado para o outro sem fim, tudo bate, ou cai no chão caso não esteja protegido. Causa náuseas tanto movimento descincrono… Muito diferente do que sentido o barco a velejar, fluido entre o vento e as ondas. As horas passaram e em breve fui substituída pela Janet para poder descansar. Que fazemos amanha? Será que o plano vai funcionar? Eu arquitetei um tubo relativamente comprido por onde poder respirar. Preciso ganhar tempo de baixo de água mas não temos equipamento de mergulho a bordo. Precisamos de uns pesos para nos manter mais abaixo e não batermos tanto com a cabeça no caso. Lembrei-me dos enlatados de “chili con carne” que tínhamos abordo! Basta arranjar uma maneira de agarrar as latas à cintura e ai temos os nossos pesos! A Janet ria-se perdidamente, mas eu falava sério, enquanto claro entrava no jogo da gargalhada, pois estar à deriva no meio do mar, pode não ter piada nenhuma se não conseguirmos solução para de lá sair.

 

(to be continued… 🙂

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#day 36 – Memórias do TransAtlântico à Vela (Parte 1)

“Porquê apanhar um avião se posso ir de barco?”

 

Estava a planear voos para um retiro na selva amazónica peruana, quando uma pergunta agarrou a minha atenção: “Porquê apanhar um avião se posso ir de barco?” Obvia pergunta… Porquê sempre avião? Porque é que o caminho não se faz mesmo caminhando ou neste caso, velejando? Ainda hoje estou para saber de onde surgiu a pergunta, mas o que é certo é que aqui estou, neste barco, à deriva.

Comecei por tentar lembrar-me de amigos que velejassem e pudessem estar eventualmente a fazer a rota que eu procurava (Portugal-Brasil) e me pudessem levar. Prometia ser ajuizada e dedicada aprendiz. Mas aparentemente nem muitos o fazem… Mas eu estava decidida… Quem me conhece sabe que raramente desisto de algo que quero muito… E por isso, não tendo encontrado ninguém em Portugal, decidi procurar online. Foram inúmeros os sites que descobri que cruzam capitães com disponibilidade nos seus barcos, e marinheiros (ou iniciantes) com vontade de seguir viagem (ex: http://oceancrewlink.com/). Não demorou mais do que um mês até (depois de uma série de tentativas) receber uma chamada de um tal capitão alemão cinquentão que me aceitava no barco caso eu estivesse disponível para dar aulas de português. Aparentemente ele passa tanto tempo em portos de Cabo Verde, Madeira, Açores, Brasil e Portugal que é compreensível que precisasse mesmo de aprender a língua. O acordo pareceu-me justo. Eu ensinava português, e ele ensinava-me a velejar. E assim foi, antes do transatlântico, era preciso entregar um 64 pés a Marmaris (Turquia). Ia partir de França e convidou-me para ir e fazer uma primeira viagem mais curta antes da passagem atlântica. Pareceu-me lógico e super interessante fazer o mediterrâneo como experiência, não fossem as datas cair mesmo em cima do Natal… A minha mãe que sempre apoia estas loucuras, só disse “vai! Natal há todos os anos”, e eu fui. Quem tem uma mãe assim, que nos empurra para o mundo desta forma. Que nos deixa de consciência tranquila sempre que queremos ir por ai fora viver? Dois dias depois já me via no aeroporto depois da correria habitual de passaportes e compras de equipamento onde constavam na check-list items que provavelmente nunca tinha visto na vida como coletes salva vidas com linha de vida, que apesar de não serem nada de extraordinários, não são propriamente o tipo de items que se tem em casa “por acaso”. Por sorte, e dadas as minhas manias de me atirar de cabeça às experiências, um telefonema ao professor com quem tinha acabado de tirar a carta de patrão local, resolveu a questão das duvidas e eu estava finalmente encaminhada para o teste a acontecer perto de casa ainda. Estava assim pronta para seguir viagem. Dei por mim, no entanto a constatar a loucura de tudo aquilo. Tinha, há dois dias atrás, marcado uma passagem para Marselha (o aeroporto mais perto do porto em França onde ia encontrar o capitão), cidade esta que não se trata do melhor local para se chegar à noite e sozinha. Ainda por cima, tive que fazer tempo pois a minha boleia só chegava uma hora depois. Jantei na estação dos comboios e dei por mim constatar que tinha acabado de apanhar um avião para Marselha, esperava uma boleia Bla Bla Car (por não haverem mais comboios aquela hora) de um francês que não conhecia nem tinha qualquer tipo de referências, para me levar ao Porto onde um capitão que eu igualmente desconhecia me esperava, para atravessarmos o mediterraneo à vela e entregar um barco de luxo ao seu dono na Turquia, deixando para tras os doces de natal, e a família que tanto me queria. Loucura ou viver? Nunca soube bem distinguir as duas coisas 🙂

 

(to be continued… 🙂